Abandonei o blog por um bom tempo. Ando ocupada escrevendo coisas desnecessárias. Deveria ser sempre assim...escrever é um ato de total desprendimento e não deveria haver texto conclusivo ou objetivo, nem ansiedade ou tempo demais sofrendo na gota da pena. Sou mulher, só sei continuar , jamais concluir... Hoje lamento não haver LP, a expressão" virar o disco" anda me fazendo uma falta!!!!!
Escrito por adrianaflorence às 22h32
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A Menina e a Flor 
Mãe é uma palavra que brota da boca do coração. Boca terna e cheia dos calores mornos ainda da gestação. Falar é bom. Enchemos a boca de alma pra dizer, mãe... E quase sempre que chamamos somos atendidos, auscultados, amparados. Seja por nossa mãe biológica, seja por uma estranha força maternal que a palavra desperta nos outros, desperta no entorno. Há algo de solidário, cheio de compaixão na estrutura da palavra e que lhe confere um sentido mais amplo, tortuoso, mas preciso no que se refere ao alvo. E se ouvimos alguém pedir mãe, acabamos por nos tornar uma. Concluo, e não costumo concluir, que, portanto, nascemos mulher, logo, nascemos mães. Não há como fugir dessa sina adorável.
Decidir se vamos ou não gestar é uma outra questão, digna de contemplação e responsabilidade na decisão. Mas é certo que somos uma espécie de mãe do mundo quando ganhamos, ainda no ventre, um útero e um coração. Talvez o coração das mulheres more nos seu útero e a vulva seja parte da matéria da alma. Édipos e arquétipos esquisitos povoam discussões intermináveis sobre as mães, pobres das mães. Afinal, não foram feitas para serem decifradas. Junto da palavra vem um bocado de lembranças, de medos e coragens. Vêm as lembranças que não dominamos; só elas, as mães, as possuem. Elas são as depositárias fiéis e amorosas de, pelo menos, uma década de memória dos filhos. Será esse o grande segredo dos laços? Sem nossas mães nada somos. Elas são uma casta poderosa que guarda tudo que não lembramos sobre nós mesmos. São nossa memória anterior. E o amor talvez nasça nesse limbo da memória. Mães são nossa melhor testemunha. Alguém que nos ama e nos conta quem somos. Por vezes até decidem quem somos, e acreditamos. São como Parcas girando a roda, como Moiras tecendo as tramas. São elas que rezam, velam, zelam, e entendem o que quer dizer incondicional, nessa dura vida que exige e cobra condições a todo o momento. Mãe preta, mãe de leite, mãe água, mãe terra, mãe África, mãe de santo, mãe do céu, aldeia mãe, célula mãe. Todas as mães do mundo. Todas as mulheres do mundo. Só as mães são capazes de, num planeta povoado de gente invisível, fazer cada alma aparecer. Para um mundo melhor basta gritar MÃE e todos os seus significados despertarão o que está adormecido.
Escrito por adrianaflorence às 15h23
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A menina e a flor 
Escrito por adrianaflorence às 00h36
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Maio de 2009... Manhã de Outono Magma, gripe e coragem... Hoje acordei com muita febre. Espero que minha gripe seja tupiniquim mesmo. Com tantos escritores, mitos, artistas e muralistas fantásticos no México, odiaria importar , ao invés do clima de Frida , Rivera, Orozco ou Siqueiros, um vírus que nasceu suíno. E assim, febril, resolvi escrever sobre um assunto recorrente, batido, quase banal, não fosse essa incapacidade que temos em fazer parar de soluçar os nossos corações. Seja por um amor inatingido, encontrado ou perdido, seja pela alegria tristonha que sentimos ao fazer mergulhos, sempre pessoais, mas atribuídos aos outros, em nossos próprios abismos. Meus abismos são meus conhecidos, velhos amigos. Geralmente me socorrem mais do que me maltratam. Uma espécie de algoz salvador. Quase masoquismo de minha parte, aceito. Mas sem eles me sentiria perdida em meio às soluções definitivas de mulher bem resolvida, coisa a que tenho verdadeiro horror. Seríamos insuportavelmente chatas se fossemos bem resolvidas. Adoro o caos que se instala ,frequentemente, emergido como lavas incandescentes dos meus abismos. Magma enfurecido que me acorda sempre que a vida parece "normal", aceitável... banal. Magma que me forja melhor. Temo que um dia me transforme em cinzas. Mas se isso acontecer, ressurjo triunfante que nem Fênix, e viro mito de mim, personagem. Melhor que ser banal. Melhor acreditar-se especial. Todos passam pelos amores, ou são eles que passam por nós. Podemos decidir ficar e trazê-lo para a vida prática, ou deixa-lo na fronteira, marginal, pedindo demarcação. Podemos deixa-lo entre quatro paredes, literalmente, secreto e invisível. Porque há diferença entre amar e viver o amor, pode acreditar. Após certo tempo de caminhada, temos mais capacidade para escolhas... Será? Vou vivendo acreditando nisso, por enquanto. Quando esse "grande amor" passa, termina ou é terminado, sofremos os soluços, ficamos bêbados de sentimentos e emoções que vêm à tona. Embriagados pela nossa dor fazemos o tal mergulho... E quase sempre voltamos para a superfície, banal e segura. Cabe saber o que trazemos nas mãos e nos olhos quando desse retorno. Descobri que quando nos relacionamos fazemos parte de um espécie de pacote. Um pacote que contém um determinado tempo da vida do outro. Nele estão as coisas boas, felizes, eróticas, até as banais. Mas também está tudo que o outro, quando decide mudar, quer esquecer. Cada minuto, história ou personagem. Isso acontece com amantes, amigos, irmãos. O passado, quando incomoda, é lavado, e acabamos descendo nessa enxurrada galeria abaixo. A maioria das pessoas quando quer deixar uma parte da vida para trás, acaba por deixar tudo que a faz lembrar dessa vida. Somos culpados pelo que o outro fez com seu tempo, com suas memórias, com a sua vida. E não somos consultados sobre isso. Somos esquecidos juntamente com o pacote. E o outro acredita que assim tem sua vida "renovada", como se zerando a conta fizesse desaparecer o bar e a ressaca. E também os devaneios da embriaguez. Resta compreender que não há traço de desamor ou ingratidão... Talvez uma covardia pueril. Nem todos se fortalecem com suas histórias. Nem todos são capazes de separar joio de trigo. E nem sabemos se nessas memórias somos um ou outro., já que os dois são necessários.Quem sabe? Resta uma aceitação. Há terras sem movimentos tectônicos importantes, sem magma impulsionando à vida. Há gente morna... e feliz. Que sejam plácidas, pois. Resta um contemplar das diferenças e um cadinho para que não percamos a nossa parte nessa história. Cada um leva sua porção e decide o que fazer com ela. A minha, jogo no abismo salvador e aguardo que, no calor do centro da minha terra, meu magma a transforme em lava corajosa. Sou febril , essa é minha natureza.
Escrito por adrianaflorence às 00h28
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" Fim do amor, breve a dor, basta um longo esquecimento.." Paulinho PedraAzul
...os poetas mineiros conseguem ser quase cirurgicos...o que pode ser eficiente
Escrito por adrianaflorence às 14h06
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Novo morador do Atelier: Gaudi!!

Escrito por adrianaflorence às 13h55
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Eu tenho um cachorro! Gaudi chegou em dezembro.
 
Escrito por adrianaflorence às 13h52
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Porto Alegre, 12 de Abril de 2009.
Outono Santo Agostinho dizia:
“Somos lamparina que há de ser estrela”. Contudo, somos luz só pela fé e não pela visão clara. Fomos salvos pela esperança. E quando se vê o que se espera, não há esperança. “ Nossa alma carrega passado, presente e futuro, ao mesmo tempo, num tempo mítico, no tempo das coisas do espírito. Fé é acreditar sem enxergar. As coisas do coração são invisíveis. Amor, fé, esperança falam a mesma língua. Em verdade há momentos felizes. O que nos inspira são as lembranças da infância. Nossas memórias nos esculpem e fortalecem. Disso não tenho mais dúvidas. “Uma infância amorosa é o chão pelo qual caminharemos até a velhice... e a nossa aventura existencial terá mais ou menos chances à medida que esse chão for confiável”. Escreveu certa vez um poeta Hoje, olhando cada um de vocês, posso ver a nossa infância feliz e promissora. Posso ver nossos sonhos compartilhados, as bergamotas comidas no pé, as invernadas, os açudes e pescarias. Posso sentir o minuano soprando rasteiro e gelado e nossos rostos rosados, pequenos... Juntos, a caminho da escola cantando. Vejo as coxilhas e escuto as canções. Posso sentir os perfumes desse tempo e acompanhar os passos dos nossos corações. Que tempo bom! E, olhando mais atentamente, percebo que ele não passou. O tempo feliz ficou nos nossos olhos para sempre. E o caminho que o céu desenha com esse tempo é ainda mais misterioso... Estou certa. ...destino, acaso, inevitável... Diferentes maneiras de se dizer a mesma coisa. O céu me presenteou com essa irmã tão querida e sei, os amigos que Carem e Niels foram acolhendo ao longo de suas vidas, são uma extensão dos laços mais sagrados do amor que carregam nos seus corações. Sem esse caminho de afeto compartilhado e vivido com tanta dedicação e intensidade, como eles se reconheceriam?
Escrito por adrianaflorence às 12h22
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O amor semeado é devolvido pelo céu de forma generosa. Só podemos reconhecer um grande amor quando todos que amamos, até então, se fazem presentes nos seus olhos. E posso ver cada um de vocês brilhando na água dos olhos da Carem e do Niels. Um rio de infância, amor e poesia. Um rio de memórias felizes e vivas. Dois destinos, dois continentes, duas culturas, duas lamparinas guiando um amor num mar de esperança. Prontos pra virar estrelas. Em verdade há momentos muito felizes.
A felicidade não precisa ser eterna, mas pode ser contínua. Sobre eternidade nada sabemos. Pressentimos com a força de nossa fé, somos luz só pela nossa fé. As rosas vão colorindo o caminho, mas nem sempre precisamos ou poderemos colhê-las... Importa que possamos percebê-las. O Amor Não precisa ser eterno, basta que seja intenso. O céu se pronuncia, por vezes com intensidade, porque que já conhece a eternidade. Basta que sejamos entregues ao céu, confiantes feito crianças. Dignidade vem junto dele. Só de ser amor já será digno. Digno de ser vivido, experimentado. Comungado. O Amor Não precisa ser inédito, mas renovador. Pode vir do passado, das lembranças, do sonhado. Mas nunca poderá ser planejado. Pode chegar mansamente ou em meio a tempestades. Pode chegar num intervalo qualquer do coração. Talvez o amor verdadeiro exista mesmo nos intervalos, sempre entre uma coisa e outra, entre a decepção e a esperança. Mas vive encantado, pronto a ser despertado. Mora num lugar desconhecido, sem aparatos, sem alegorias,esperando pra arrebatar nossas vidas num instante de distração. Não precisa haver compromisso, mas comprometimento; entrega. Não há de ter amarras, mas laços. Nada de explicações, só confissões. Não há espaço para medos, nada de covardia. Amar sempre será um ato corajoso. Não pode existir só no coração, será importante a expressão. Resgatar o amor da literatura e traze-lo para a vida real. Tantos amores se perderam pela ausência do gesto, da palavra ou do silêncio. Há dois tipos de silêncio: o silêncio da comunhão, que representa o encontro do essencial onde o dois se torna um. Que transcende as palavras. E há o silêncio das palavras não ditas ou perdidas, onde cada parte se torna uma ilha isolada onde nem as aspirações mais íntimas, nem os s movimentos da alma são compartilhados. Mal vai o amor, se não diz tudo. Gentileza; gentileza não pode faltar, mas sem que o corpo perca os rompantes e a espontaneidade. Amor também é matéria, desejo, amor também é paixão.
Escrito por adrianaflorence às 12h21
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Nada de turvo deve haver nesse amor. Tem que ser transparente; talvez um pouco velado... Revelador; tem que ser revelador esse amor. Há de revelar vocês um ao outro, enquanto para o resto ainda serão mistério. Nada de manual, regras, meios. Nada de discutir a relação. Amor não é relação, é vida além dela. E o amor não os abandonará em tempo algum, sob nenhum pretexto, argumento, ou dor. Amor gruda na pele, enfeitiça, mistura existências, cria e devolve essências... Não haverá despedidas ou partidas. Amor atravessa todas as fronteiras visíveis e permanece. Não haverá mentiras, nem verdades. Amor fala outra língua. Haverá o anel, o buquê, a chuva de arroz... Mas a cadeira de balanço, essa deverá ser sonhada e esculpida com paciência; amor é também aceitação. E Envelhecer junto de quem se ama é viver além das mãos dadas e do medo da morte. É encontrar um lugar para habitar, e depois de conhecido não saber de outro lugar para morar. Quando amamos de verdade sentimos a dor do outro como fosse nossa e a dor parece maior. Quando amamos sentimos a alegria do outro, como nossa. Até maior e melhor. Amor é uma benção, um arco-íris encantado que nos leva para dentro do outro. Passamos a habitar o outro. Amar é amar além do que se vê ou toca; além das afinidades ou diferenças. Amar é amar o que não se pode afinar, porque o amor é maior que tudo isso. E nada levaremos, pois que não haverá espaço para as coisas da terra. Nada levaremos, pois que não haverá espaço para a dor, desilusão, desamor, perda e rancor. O amor faz a alma aparecer. E só nesse momento elas se reconhecem. Então, na mesma estrada amorosa da infância, com seus jardins, e seus bancos, e seus jasmins; vocês se reconheceram. Céu e terra se tocaram. Duas estrelas, desafiando o tempo, misturando seus passados, presente e futuro. Unindo suas histórias, seus amigos, suas famílias. Duas estrelas desenhando um horizonte encantado e sem fim... Adriana Florence
Escrito por adrianaflorence às 11h59
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Escrito por adrianaflorence às 02h37
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Pequeno Formato- Nanquim sobre linho-30x40 cm

Escrito por adrianaflorence às 02h35
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Mas flores, se sentissem, não eram flores, eram gente; e se as pedras tivessem alma, eram coisas vivas, não eram pedras; e se os rios tivessem êxtases ao luar, os rios seriam homens doentes.
É preciso não saber o que são flores e pedras e rios para falar dos sentimentos deles. Falar da alma das pedras, das flores, dos rios, é falar de si próprio e dos seus falsos pensamentos. Graças a Deus que as pedras são só pedras, e que os rios não são senão rios, e que as flores são apenas flores.
Por mim, escrevo a prosa dos meus versos e fico contente porque sei que compreendo a Natureza por fora; e não a compreendo por dentro porque a Natureza não tem por dentro, senão não era a Natureza.
Fernando Pessoa

Escrito por adrianaflorence às 00h47
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Aquarelas
Aquarelas
Aquarelar é a maneira mais feminina de pintar. A água conduzida pela ponta do pincel ,e a leveza da falta de controle sobre o resultado.Tudo é surpreendente quando se faz uma aquarela. Os movimentos são delicados,suaves, quase uma dança invisível. Nada existe além da água, do papel, dos pigmentos.


Categoria: Fotos
Escrito por adrianaflorence às 13h21
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Um conto da madrugada para os marinheiros de primeira, segunda, terceira..viagem!
A Moça e o Mar (Adriana Florence)

Eles se apaixonaram no primeiro encontro: Maria e Pedro. Mas a vida os separou.
Ele foi embora num barco pequeno, mar adentro, ela ficou na praia, sozinha. O pescador de aventura e a moça das virtudes e resignação. .
Os anos se passaram, ela se casou sem fazer gosto. Teve três filhos, um cachorro, um carro novo, um jogo de cama de percal e dignidade. Compraram uma casa na praia e o mar, que lambia e salgava as vidraças, o trouxe de volta a sua vida no gosto da maresia.
Olhava o mar com tristeza e saudade. Olhava o mar brincalhão que a fazia correr quando quebrava suas ondas na praia dourada todos os fins de tarde.
Um dia resolveu conversar com ele enquanto olhava o azul misturado ao infinito daquele horizonte distante. Onde andaria seu grande amor?
Falava e fazia as perguntas que não tivera chance de fazer. Falava por horas. Assim os fez por muitos anos.
A casa, as crianças, o cachorro, o marido; ninguém mais precisava dele. Os lençóis envelheceram. Dignidade,sabia,viria com a idade, e veio. As vidraças se renderam a maresia e assim permaneceram: opacas.
Um dia, ao caminhar pela orla branca, achou uma concha, colou seu ouvido e esperou, como criança, que os ecos do mar atravessassem seus pensamentos. Ouviu a voz do amante, clara e macia. Assustada, largou a concha subitamente. Afastou-se e fitou o mar como se o afrontasse e repreendesse. Como poderia? Não havia lançado garrafas, ou procurado saber o paradeiro do desertor, e seria o mar seu Hermes embusteiro? Ignorou o fato pensando nele como pura manifestação dos seus desejos mais secretos e foi-se embora, apressada, de volta para o bolor e a umidade.
No dia seguinte fez o mesmo caminho do mar e encontrou a mesma concha. Apanhou-a e, surpresa, ouviu novamente seu amante a responder-lhe as perguntas de todos aqueles anos e a fazer confissões excitantes.
O marido, desconfiado, se perguntava o que aquelas caminhadas significavam e para onde, de fato, a estariam levando. Com o tempo teve a certeza de que ela ia ao encontro do amante que deveria ter voltado qual Ulisses a sua amada.
Passou do amor a frieza e por fim ao esquecimento. Como em todo casamento sem que se faça gosto.
Ela atou-se as velas estranhas daquele acontecimento bizarro, e abraçou a proa do barquinho imaginário, feito as carrancas do”Velho Chico”, apesar da consciência dos papéis invertidos.
Encontrava seu amante e falava com ele através do mar.
As conversas eram longas e agradáveis. O mar, um observador discreto.
Os anos se passaram. Trocaram juras, promessas, fizeram pactos. Fizeram amor de sambaquis.
Sempre o mesmo ritual: ela falava para o mar com os olhos fixos como naquele dia da despedida quando o barco pequeno foi comungado pelo grande azul e sumiu. As respostas vinham através da concha. As falas picantes, as propostas doces e indecentes, fizeram-na apaixonada e insana, afogada que estava no sal que, sem ela perceber, a embalsamava em definitivo.
Deitava-se nua sobre a areia e esperava os golpes das ondas e a espuma espessa cobrirem sua pele. Fechava os olhos, comprimia a boca, abria braços e pernas, para os deuses dos mares se servirem do seu desespero e abandono, lambendo suas feridas e ressuscitando o amado.
Nascia daquelas espumas como nascera o mito.
As crianças foram para a faculdade, casaram-se. O marido a deixou com ar de indignação e despeito, e talvez porque depois de toda uma vida de observador da vida alheia estivesse na hora dele viver a própria. Virou avó, envelheceu.
Ficou novamente só.
A vida passou levada pelas ondas daquele pedaço de mar, o mesmo mar que lhe enviou o amado aprisionado na concha. Esfregou a superfície do molusco na esperança de que a magia fosse além e Pedro se materializasse de repente. Nada aconteceu... só a velhice, alguma temperança e o novo ofício de catadora de conchas e de lembranças.
Escrito por adrianaflorence às 05h01
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